sábado, 11 de junho de 2011

O mundo de um motorista

Trancafiado em seu universo de bom dia lá vai o motorista.
Lá vai ele, olhem que maravilha, sem ele nosso início de jornada não seria possível.
Hoje resolvi dedicar meu verso ao próprio...este ser menosprezado em seu salário e em recebimento de sinais de gentileza.
Tudo começa na rodoviária...pega passageiro...paga com dinheiro inteiro e não tem trocado.
“Espera, que daqui a pouco te entrego o troco” e então segue apreensivo a viagem temendo ao saltar não ter recebido o tal troco.
Sobem então passageiros e mais passageiros e então eis que surge o troco.
Nesse passar de roletas, imperceptível ao fim do dia, o que restou foi apenas o cansaço...
Mas antes mesmo de ir pra casa, precisa fazer certa quantidade de viagens e aguentar passageiro de todos os tipos e avessos.
Sobe o moço que não sabe pra onde vai...
Sobe a passadeira e arrumadeira de lares...
Sobe o indiozinho, menino todo meigo, uniformizado e com a boca que o lambuzar do chocolate serve pra moldar.
Sobe o emo e seu amigo, compartilhando de um corte de cabelo todo “trendy” e com seus incessantes movimentos de ajeitar.
Ah, sabe quem mais sobe...sobe o Seu Mário, o mestre de obras de mais um desses projetos “boom” da construção civil...ele sobe e junto dele três ajudantes...
A essa altura o ônibus vai ficando cheio, mas igual coração de mãe ele segue rumo a estação.
Sobe Dona Laura, Dona Lígia e Dona Marleide...todas a caminho das promoções do supermercado.
Sobe Júlio, o feirante.
Sobe Fábio, o estudante.
Marília, a professora.
Anita...essa, pelo que dizem, atua mesmo é na destruição de casamentos...profissão que já está quase alcançando valor no Sindicato.
Sobe eu, sobe você, subimos nós e eles.
Sobe Valdemar, o cara do dread...
Sobe Lúcio, o do som...que, por sinal, que barulheira logo pela manhã.
Sobe Cleide, a dona do cigarro...e com ela sobe toda a murrinha de uma noite de fumaça.
Começam a chegar os pontos de seus respectivos saltantes...
Eles descem e esquecem-se do motorista...
Será que lhe deram bom dia?
Será que lhe lembram a fisionomia?
Se lembram ou não...que injustiça é a vida de um motorista...
Ele faz o mesmo percurso e não se cansa...e se cansa não nos conta...está sempre lá, isolado, se fazendo de participante das ferragens do ônibus.
Quando alguém puxa a cigarra é possível notar seu olhar através do espelho...só isso...nenhuma palavra nem sorriso.
Ele, o motorista, nos leva para fazermos nossa história diária e a dele?
Quem faz a dele? Somos nós? Mas será que somos merecedores?
Ele ali, em sua pobreza de existência, inebria os que não se deixam perceber...
Ele ali, em sua camuflagem, não é capaz de dizer quem foi que por si passou e desceu...
Ele, o motorista, é personagem que atua de sola em nosso livro e que só pegamos na caneta pra escrevê-lo quando esse passa direto do ponto e nos deixa a esperar o próximo ônibus...atrasando assim, a escrita do nosso livreto...esse livreto...esse livreto indecifrável.

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