segunda-feira, 25 de julho de 2011

Um texto sem título

Desde pequeno algo que me arrebata constantemente é o anoitecer.
Será que alguém já foi capaz de vigiar o céu ininterruptamente de modo a enxergar o dia saudando a noite?
Este fenômeno ministrado pelos fusos horários, que se comporta de acordo com sua chefia em cada região, mas que brota sempre em todos os corações.
Estava nas últimas páginas de um livro, quando ao me encontrar com a ideia de noite me remeti ao passado não muito longínquo; ao passado das minhas falas abstratas, dos meus invernos sem lembranças precisas, dos meus desenhos, dos meus manuscritos não lidos.
O que eu admiro no poder criativo é essa ajuda ao resgate, essa indumentária que a imaginação veste as memórias e que surge sem a necessidade de prosa, de refrão, de verso.
Outro fato importante é a relação íntima com o papel e a caneta; eles independem de eletricidade e os bons erros e mudanças de palavras são registrados na base do rabisco e não de um botão que quando apaga, some com o verbo; dá cadeira e serve café para que o escritor comece novamente, não permitindo-o se interpelar nas frases, pois o que foi pensado e não coube espaço foi deletado. Que sorte tenho de me maravilhar neste processo ancião da escrita, já tendo desligado o computador posso ver meus rabiscos...pena que daqui a pouco esse papel será trocado por letras virtuais...letras que no momento em que você lê não são mais as originais.
Vou tentar observar amanhã esse encontro da luz que bate seu cartão e da noite que vem para trabalhar enquanto eu me preparo para dormir e que no restante da madrugada só me observa...calada, às vezes atroz, maliciosa, forasteira e que tem de companhia as estrelas que me tomam a capacidade de entender como tal riqueza se faz e me emerge no campo da fantasia, me destituindo de filosofias pré-prontas e me esgueirando na infinidade de sonhos que já não dava mais tempo de ter.