terça-feira, 13 de março de 2012

Quero morrer velhinho

Quero morrer sentado numa cadeira de balanço
Decidi!
Tem que ser em uma fazenda
Perto do verde
E de preferência no Rio Grande do Sul
Possa ser que ela seja minha
Ou que um amigo, que eu ainda vou conhecer, me empreste
Mas não pode faltar a cadeira de balanço
Quando lá eu chegar, vou saber, se a ansiedade de hoje teve efeito
Vou saber se fui feliz, se namorei, se tive filhos, se vinguei
Árvore sem frutos possa ser que eu me torne
Só não quero que se esqueças da minha cadeirinha
A cor não importa
Nem mesmo se é sofisticada ou daquelas que todo mundo põe pra sentar na porta
Pra tomar conta da vida dos outros
Pra ver criança chupando sacolé
Quebrar vidro
Acionar alarme de carro
Eu tenho o direito de escolher quem eu quero ao meu lado
Imagino eu e meu amor, velhinhos, vendo a chuva, que tanto amo, rasgar o céu com seus estilhaços gotejantes
Silenciadores homens, discretas mulheres trabalhando juntos em suas hortas e quintais
Eu ali, aposentado de viver e cansado de ganhar
Sem tevê, sem rádio, sem política
Serei eterno
Virá a chuva e eu brincarei como hoje brinco com esses versos
Serei um velho, uma fotografia, um sonho, uma cadeira de balanço
Serei apenas poesia.