domingo, 21 de fevereiro de 2010

Vai passar

O que se fora para se perder eu lanço pra vida me ganhar
No que eu me fiz resplandecer, que somente reflita a lucidez
O opaco que eu via ao querer tocar sua tez
Era o arfar da minha lembrança a me castigar
Viver uma solidão de infinito para um rico em que nada tem a lhe dar
Vi crescer o sentimento mais profundo que hoje se perdura
Vi pairar em meus cabelos o sentido da tua covardia
No caminho, vi também os cegos que voltaram a lisonjear os nítidos flashbacks
As meninas impuras, os escravos de suas emoções, os injuriados
Só perdi a sentença do teu “vão e são” vívido pela amargura deleitada
Sou a luz,a sobra, a negação da dúvida que te atormenta e te faz me desejar
Sou a navalha que a pouco te cortou de ódio e lhe fez me procurar
Sou teu malho, sou teu eficaz e invólucro pertinente rochoso
O sorriso colado em meu armário
A minha cara de felicidade que ninguém nunca viu
Devolva-me ela, devolva-me o que para eu vivo
Viva a meu lado e sejamos felizes até a próxima carta

A voz


Sempre tive de tomar as rédeas e sofri calado por não saber esperar
Talvez o tempo em que marca em meu relógio não seja o mesmo que na tua vida se alarda
O meu peito que arde de angústia
O teu louco perfeito de alma branca e ríspida
Tua voz insurda que eu me perco
Teu cheiro de amor que exala nas cartas
Tua inocência que eu peguei e guardo ao meu lado
As chaves que poderiam ter te propiciado das maiores emoções
A senha perdida que não encontrou e se fez rodear
O falho fardo do teu casaco que agora não te aquece mais
O incolor do teu sorriso brando
O prazer que da minha boca a sua, aroma de girassóis
Todas as vezes que te esperei
Nas vielas do crime que se instalava a minha esperança
Você passou e deixou seu cheiro desmedidamente intocado
Após horas e horas penso somente em como você pode rejeitar um amor
Amor puro e capaz de te fazer uma pessoa completa
Que eu vagarei por cada poeira até poder te encontrar
Na incerteza da minha existência acho sua dicção e me recolho em vastas tênues passagens de sua obra
A obra mais perfeita e mais sutil
Seu andar, seu corpo, seu amor

sábado, 20 de fevereiro de 2010

Eu me reinvento, e ainda não acho a fórmula da dor

Sofri durante três anos
Sofri por ela, por quem sabe quem é
Sofri por um ser inanimado
Sofri por não ter a audácia de me conter
E ainda sinto falta desse sofrimento longínquo que embarreirou todas as minhas decisões
Por onde encontrar a dor?
Pergunte ao amor
Ela está à porta da igreja a esmolar
Um pedinte, um riacho e uma montanha
Todos com cor e forma da paisagem
Todos ressaltando o branco e a folhagem
A dor...
Ela é doce!
Ela é como eu e o meu espelho
Mas mesmo assim ainda não sei como ela surge
Não sei aonde encontrá-la
Disseram-me que ela mora na casa antiga da minha vó
Que aos bolos e tortas nos deliciávamos quando crianças
Minha prima mais querida se foi, assim como meu avô e você...
Por isso que acho que cada vez estou mais longe da dor
Porque se estivesse com você eu acordaria com ela todos os dias da minha vida

O toque do último beijo

Eu era como você
Sentia, sorria , desinibia e andava
Hoje pouco sei comer, sei andar, sei sentir
As vozes que um dia eclodiram de um “eu te amo”
Hoje clamam em desespero ao "de você quero distância"
A angústia de te olhar e ressentir
O medo dos teus olhos aos meus se fitarem e inexoravelmente por mim eles não se distanciarem
A meia palavra que ao som do teu silêncio eu resisti mencionar
O teu cheiro de mar que a brisa que por si o carregava se dissipou
O rastro das tuas meias, das tuas botas com lama que se apagaram
O nosso lençol encharcado pelas rubricas da tua chuva
A minha fogueira que te queimou um dia
E hoje sem mais lenha quer ousar a voltar
E em meus devaneios que você sempre alimentou
A sua esperança e o seu torpor
E a minha pena e o meu desdém
Tantas lágrimas pra quê serviram?
Pra escrever esse poema?
Se é que é um poema ou rima desmetrificada?
De algo sou convicto por enquanto
Nunca serás amante de ninguém como hoje eu sou por ti
E dedicar o amor que te dediquei
Por não restar-te amor
Já que eu dele queimei


Eu te amo até a página dois

O meu amor ontem bebeu demais
Peguei a chave do carro, guiei-o
E ainda tive que ouvir desaforo
Troquei suas meias, seus sapatos e entramos juntos à banheira
O meu amor às vezes tem chulé
A pasta de dente semi-aberta
O cotonete usado
O papel higiênico que acabou
Puxa vida... Esqueci de passar no seu Antônio
O trabalho de anatomia da faculdade poderia esperar
Mas o meu amor
Ele não poderia
Jamais!
Saímos juntos e nos dirigimos a cozinha para um chocolate quente
À tv estava o padre Fábio falando de suas tristezas
Contei-lhe as minhas, contudo, o vazio do avesso das palavras se ecoou
Sempre fora assim
Eu sustentando, eu sendo a base e a casa
Agora não dava mais
Mas pelo meu amor
Não bastava a mordida de mosquito no meio do Egito
Mas pelo meu amor
Eu reenfrentaria o meio mundo
Mas pelo meu amor
Só para lhe ver sorrindo novamente
Já que de mim esse amor não é recíproco
Apenas pelo meu amor