Desde pequeno, quando minha mãe me levava ao dentista ou mesmo para fazer compras, eu ficava ali, da janela do ônibus, só reparando a inércia do sol.
Era como a lua, mas era mais estável seu movimento...
A qualquer instante parecia que eu poderia os alcançar, não tinha noção de quão distante estávam de mim e os queria ver de perto.
À medida que o ônibus se movia, na minha frente o sol pela janela nunca ficava para trás...
E eu me perguntava o por quê daquela estagnação toda, por que é que ele, o sol, não se movia para trás de mim.
Ontem eu percebi novamente tal inexorabilidade, tal maestria com que ele domina o universo, o meu universo que agora um pouco mais adentro está dos seus milhões quilômetros que nos separam...
Naquela mente pequenina, eu não me curvava mediante as palavras da ciência, eu fazia o meu próprio conhecimento e ele varria o percurso de casa para onde quer que eu fosse.
Ainda hoje, mesmo curvado, eu não me prostro em aceitação; eu quero dominar essa órbita elíptica que viajamos a cada ano, quero entender nossa espécie, quero me compreender e saber o motivo pelo qual as falhas e as águas que nos banham não me dizem...
Quero viver a imutabilidade dos sentimentos de outrora...
Quero os amores do mundo ao meu redor, contando histórias uns para os outros, vivendo a alma ao invés do corpo, não se dizimando sobre a terra...
Esse ar, essa pele pujante, esse olhar que me confunde, essa natureza sua e minha, todas as pessoas do planeta...
Vamos viver a sincronia dessa dança convidativa, que nunca cessa, e que poucos conhecem a melodia.
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