domingo, 22 de fevereiro de 2009

Volátil e esdrúxulo (Anderson Cavalcante)-livro "Preâmbulo"/2009

A simplicidade é algo inevitável naqueles que fingem uma face descontornada.
Uma face na qual exprime todas as suas marcas de uma vida volátil
Uma vida que deu-te rugas e experiência necessária para poder dizer de nada valeu o sofrimento
Sofrimento almejado por aqueles que sempre foram felizes
O avesso das idéias que foram se desprendendo com o tempo gasto
As solas de sapatos que foram deixadas como pegadas ao chão da nossa imensidão
Os desvios que a nuância e o afago puderam trazer
O teu cheiro que eu pude receber naquela noite chuvosa
Ao pé da lareira nos beijando ao som de Etta James
Fazendo amor na cama que um dia emprestou para teu passado promíscuo
Passado que arde e lateja até o nosso presente
Nas barcaças, no vilarejo, no casebre que nos amamos pela primeira vez
Tudo me lembra você quando estou à mercê de um ataque
Nos quadros pintados pela tua ingenuidade
Nos porta-retratos que a gente quebrou em nossa ida a Rennes
Tudo me faz voltar atrás
A igreja na qual nos casamos
O santuário que visitamos
O Louvre que nos conhecemos
As idas as ilhas Gregas
O paraíso que perdemos por você ter escolhido a sua vidinha esdrúxula
Guardamos na memória, porém o teu cheiro em meu cobertor já sumiu
Queria que você pudesse retornar ao menos por mais uma noite
Só para deixar sua marca novamente
Para que eu não possa jamais esquecer de ti
E para termos o mesmo prazer inconcebível pelo ser humano
Para termos o mesmo prazer da nossa primeira vez

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